14.10.02

Um senhor na minha frente le um livro e anota a lapis nos cantos. Eh um livro grosso, e ele jah esta no final. Me escorrego um pouco para ver se consigo ler a capa. Por um momento achei que era Stanislavski. Duvido. Ele levanta um pouco o livro mas nunca eh o suficiente. Penso em desistir e volto a me sentar. A coluna me doi. Seu celular toca, ele atende e num impulso abandona o livro na cadeira e sai ao corredor. Eh Stanislavski.

Ele volta. Vejo que nao eh bem um senhor e fico procurando a razao de ter pensado assim. Os cabelos revoltos sao a unica coisa que o diferenciam de uma estatua grega classica. Tem uma beleza correta, quase dura. Tem olhos curiosos que pregam em mim antes de perguntar 'Gosta de Stanislavski?'. Quis responder que o Manual do Ator repousou no meu armario branco de livros coloridos por longos meses e a unica vez que o abri foi pra colocar dentro um papelzinho com um numero de telefone escrito, mas me detive. Nem meu italiano - que vou aprendendo devagar como que come uma caixa de bombons caros - chega a tanto nem a verdade me parece inteligente. Respondi que gostava mais de Stanislavski que de Grotowski, o que nao sendo a verdade eh uma verdade, ja que nao gosto de Grotowski de jeito nenhum e nao acredito que gostarei de nenhum outro teorico do teatro menos do que dele.

Minha resposta funcionou em mim como uma travessura que criam um sorriso no canto da boca. Nele o efeito foi de surpresa. Levantou a sobrancelha direita e sorriu. 'Entao, menina que conhece Stanislavski, que outras surpresas guarda?'

A de que nao conheco Stanislavski. Mas me limitei a soltar o sorriso que estava preso no canto da boca.