28.4.10

HISTÓRIA DA ARTE

23.12.09

ALEGRIAZINHA À TÔA

Vou muito pouco ao Catete. Mas o furikake acabou, e a crise de abstinência tava me matando. Enfrentei o trânsito pré-Natal e para ir à Mei-jo, como quem procura o último bar aberto. E por conta desse trânsito, achei que era melhor dar uma passeada do que voltar pra casa logo. E já que tem um sebo interessante numa das transversais da Rua do Catete, e meus Simenons acabaram...

Subi a Marquês de Abrantes observando as pessoas com suas sacolas de compras, todas com physique du role de coelho da Alice, tão atrasados. Passei em frente a uma sorveteria e me lembrei que, três meses atrás, a última vez que usei meu cartão de débito perdido, foi lá.

3 meses sem cartão de débito e com preguiça de ir ao banco. 3 meses pagando tudo no crédito e eventualmente batendo a carteira de marido. E foi contra toda a lógica, que o cartão tava lá, embaixo da gavetinha do caixa.

E essa alegriazinha me deixou tão feliz que dei um abraço e um beijo estalado na moça do caixa, e saí por aí, a própria Polyanna descendo as colinas.

21.12.09

SIGNS

24.7.09

TALES OF MERE EXISTENCE

Eu já amava a imagem. Mas agora vi o filme.



3.5.09

15.3.09

2.2.09

THE DOT AND THE LINE


This is the anguished tale of a sensible straight line who falls in love with a dot. The dot, however, finding the line stiff, dull, and conventional, turns her affections toward a wild and unkempt squiggle. Though dejected, the line was not without determination, and, after much concentration, managed to bend himself, giving rise to shapes so complex he had to letter his sides and angles to keep his place. Before long he was able to express himself in any shape he wished, from helices to spider webs to Paul Klee's little jester. Overwhelmed by the line's geometric contortionistic prowess, the dot realized that what she had seen in the squiggle to be freedom and joy was nothing more than chaos and sloth. Thence, the line and the dot lived "if not happily ever after, at least reasonably so." The story ends with a punning moral: "To the vector belong the spoils."

The story, in Juster's words, "is a romance destined to take its place among the immortal works of our literature. But is it merely a poignant and exquisite evocation of an eternal theme? A sensitive, soul-searching examination of an essential problem? Or is it rather, in these uncertain times when man stands alienated from the very meaning of life itself, more like a beacon—a shaft of light illuminating a path to some higher understanding? We doubt it."

1.2.09



28.1.09

AS GAVETAS DO TEMPO

O tempo, em seu trabalho intestino
comete os vestígios de Deus.
Héber Sales


Era ainda a fase hieróglifa da linguagem. Mirante era o colo de Maria. Mais das vezes via tudo era de embaixo, altura de seus quadris. Viver era um ludo.

Lembro o cheiro amarelo forte: o apuro da árvore era a fruta. Serigüela tem muito bicho, dizia minha avó. E eu pensava nas vidinhas emboladas ramerrando naqueles orbes. O quintal era o universo. Galáxias de limões, pitangas, jabuticabas. O todo meu.

Eu bem achava que quem mandava florescer era eu. Quem pedia mais de um isso, mais de um aquilo, era eu. Verdade é que sempre dava muito e Maria ralhava. "É seu poder não, menina, vem de Deus." E eu perguntava quem era Deus. E ela maravilhava os olhos, mas falava coisas que eu não entendia, ilustrava com palavras o que eu não conhecia. Na metade eu não ouvia, ficava olhando a cara dela brilhar, mais um orbe.

O tempo, esse senhor saturno, não tem dois caminhos, ele corre só pra frente. E vó mudou de estrada pra mais longe, na Bahia. Eu peguei estrada pro mais aqui, nos distantes. (Eu peguei estrada tantas vezes antes de aqui, tantos escambos de certo por duvidoso. Anjo me disse: "vai, ser forasteira na vida". E eu vim.)

Vezes no tempo, o oco da solidão força a gente pro chão: as raízes. Em conversas com Anaké - que disse que eu fosse, que me esperava - resolvi ir ter com a minha avó. E D. Ivany me deu um presente de tempo - porque um bordado não é um bordado, é o tempo. E disse assim, vem comigo. E eu a segui.

Passamos pela sala da entrada, passamos pelo portão de saída, ganhamos a rua de pedra e poeira branca, e ela tirou uma chavezinha da mão, como um melquíades tira flor do bolso, o sorriso colorindo, olho de vó fecha quando se ri. Abriu o portão preto, que rangeu choroso, e disse: É sua, a árvore. Serigüelas.

E foi como o princípio. As orbes maduras, o vento rodopiando o cheiro. E maravilhei meus olhos, lembrados de Maria. E compreendi seus desenhos de verbo. Pela primeira vez eu compreendi.

E pensei em Deus e seus brinquedos. E pensei no tempo, que no seu caminhar deixa gavetas que só se abrem com a chave da lembrança. E pensei que Um é o outro.

O senhor veja, minha avó comprou uma casa pra me dar uma árvore. E decifro que me devolveu foi a meninice, à meninice. E me ofereceu - assim como quem dá um doce besta, uma mariola - uma sabedoria: o entendimento de que nas gavetas do tempo é preciso guardar o feliz dos gostos.

E eu disse: amém.

***

Texto meu, com tema que o Héber deu, que saiu também aqui.

27.1.09

Uma vez na Alemanha
Estando só e carente
me apaixonei por um pôster
que via diariamente.

Loira mulher sorridente
de maiô, doirada e quente,
e eu ali, ao léu, no frio
passando na sua frente. [...]

Eis quando
tudo muda de repente:
me tiraram o cartaz da rua.

Querem que eu ame agora
um anuncio de detergente.

Affonso Romano de Sant’anna.

16.1.09

Travessia.
Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.

G. Rosa

13.1.09

LE FEU FOLLET

Sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim. Eu era uma soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, idéias, ideais, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro pra viver a minha solidão. Por outro lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. Um tipo de comportamento não se casava com o outro. Pouco me importava.

Bukowski.

9.1.09

DANCE WITH ME

8.1.09

Vanitas Vanitatum

E a chuva me convidou a entrar na igreja. Faltavam duas esquinas para a minha casa, mas não pude prosseguir. Então aceitei o convite e fiquei, antes do biombo, sem conseguir entrar, olhando pro teto onde pela primeira vez li vanitas vanitatum, vaidade das vaidades. E eu, que entrei ali cheia de minhas vaidades, tentei me desfazer de algumas. Sentei e rezei por mim, por minha alma, pela alma de todos.

14.11.2002

7.1.09

CHICO, CHICO

21.12.08

DA SOLIDÃO

Depois disto Zaratustra tornou para a montanha e para a solidão de sua caverna, apartando-se dos homens. E esperou, como o semeador que lançou a sua semente; mas a alma, se lhe encheu de impaciência e desejo do que amava. (...)

O meu impaciente amor transborda em torrentes, precipitando-se desde o oriente até o ocaso. Até minha alma se agita nos vales, abandonando os montes silenciosos e as tempestades da dor.
Demasiado tempo sofri e estive em perspectiva. Demasiado tempo me possuiu a solidão. Agora esqueci o silêncio. Todo eu me tornei qual boca e murmúrio de um rio que salta de elevadas penhas: quero precipitar as minhas palavras nos vales. Corre o rio do meu amor para o insuperável! Como não encontraria um rio enfim o caminho do mar? Sem dúvida há um lago em mim, um lago solitário que se basta a si mesmo; mas o meu rio de amor arrasta-o consigo para o mar.

Eu sigo novas sendas e encontro uma linguagem nova; à semelhança de todos os criadores, cansei-me das línguas antigas. O meu espírito já não quer correr com solas gastas. Toda a linguagem me torna moroso. Salto para o teu carro, tempestade! E a ti também quero fustigar com a minha malícia!

Assim falava Zaratustra.
Friedrich Nietzsche

12.12.08

DESERTO

Aprendi a ler aos quatro anos. Devorei todos os livros da casa e da família até os 10, mais ou menos. Depois comecei a freqüentar a biblioteca pública no centro da cidade. Eu devia ter uns 13 anos quando me disseram que a biblioteca ia fechar para reforma e reformulação do registro de livros. Me ofereci como voluntária, não queria me afastar daquele lugar. Acho que me aceitaram por costume de já me terem por perto. Não sei se ajudei muito, mas manusear livros que, do contrário, eu nunca tocaria, me fez muito bem.

Um desses livros-descoberta foi um conto do Balzac, até então desconhecido pra mim, Uma paixão no deserto, que conta uma história de amor entre um homem e uma onça. Nunca esqueci das palavras finais que eram mais ou menos essas:

"Eles terminaram como todas as grandes paixões terminam - por um mal entendido. Por algum razão um suspeita da traição do outro; não se chega a uma explicação por orgulho, e parte-se para uma disputa obstinada."

"Ainda que às vezes uma única palavra ou um olhar seja o bastante."

Ultimamente tenho me sentido burra e tenho lido muito mal e pouco, com a diferença, em relação aos totalmente ignorantes, que eu sei o que perco.

10.12.08

CORRESPONDÊNCIA

"Tenho certeza que você ia me mandar ir à merda ou qualquer coisa assim, mas preciso que alguém me mande à merda. E só você consegue fazer isso com propriedade."