30.4.03
29.4.03
pois sem voc� vou ficar loucoooo
houve um tempo... aquilo n�o era trabalho, n�o tinha chefe, nem funcion�rio e nem sal�rio. mas era um sonho de crian�a, um Bye Bye Brasil. vida era acordar cedo, comer p�o na padaria e ir procurar o padre para que emprestasse a sacristia pra passar divers�o. se n�o tinha sacristia era mesmo a escola ou a pra�a. as cadeiras vinham do grupo da terceira idade, ou da escola para a pra�a.
(uma vez um velhinho, 80 anos, ajudando a recolher as cadeiras tarde da noite, �n�o precisa�, �liga n�o, sempre fa�o isso l� na terceira idade�. ai, ai... )
aprendi a gostar de outros gostos. a enxergar as coisas diferentes com uma curiosidade maior que a do gato. hoje ganhei a trilha sonora de uma dessas divers�es.
v� s� se existe melhor que essa pra fazer faxina? entre o vasculhar o teto e o varrer a quina a vassoura serve de microfone - 'eu vou rifar meu cora��o, vou fazer leil�o' - e a gente ri e a vida fica mais feliz.
Dom�sticas, A Trilha
1 - Eu Vou Rifar Meu Cora��o (Lindomar Castilho)
2 - N�o Se V� (Jane e Horondy)
3 - Domingo Feliz (Angelo M�ximo)
4 - Eu N�o Sou Cachorro, N�o (Waldick Soriano)
5 - A Namorada que Sonhei (Nilton C�sar)
6 - Filho (Amado Batista)
7 - Ama-me (Jane e Herondy)
8 - Voc� � Tudo Pra Mim (Angelo M�ximo)
9 - Voc� � Doida Demais (Lindomar Castilho)
10 - Estrada do Sol (Perla)
11 - Me Deixe Te Esquecer (Gilliard)
12 - Tenho (Sidney Magal)
houve um tempo... aquilo n�o era trabalho, n�o tinha chefe, nem funcion�rio e nem sal�rio. mas era um sonho de crian�a, um Bye Bye Brasil. vida era acordar cedo, comer p�o na padaria e ir procurar o padre para que emprestasse a sacristia pra passar divers�o. se n�o tinha sacristia era mesmo a escola ou a pra�a. as cadeiras vinham do grupo da terceira idade, ou da escola para a pra�a.
(uma vez um velhinho, 80 anos, ajudando a recolher as cadeiras tarde da noite, �n�o precisa�, �liga n�o, sempre fa�o isso l� na terceira idade�. ai, ai... )
aprendi a gostar de outros gostos. a enxergar as coisas diferentes com uma curiosidade maior que a do gato. hoje ganhei a trilha sonora de uma dessas divers�es.
v� s� se existe melhor que essa pra fazer faxina? entre o vasculhar o teto e o varrer a quina a vassoura serve de microfone - 'eu vou rifar meu cora��o, vou fazer leil�o' - e a gente ri e a vida fica mais feliz.
Dom�sticas, A Trilha
1 - Eu Vou Rifar Meu Cora��o (Lindomar Castilho)
2 - N�o Se V� (Jane e Horondy)
3 - Domingo Feliz (Angelo M�ximo)
4 - Eu N�o Sou Cachorro, N�o (Waldick Soriano)
5 - A Namorada que Sonhei (Nilton C�sar)
6 - Filho (Amado Batista)
7 - Ama-me (Jane e Herondy)
8 - Voc� � Tudo Pra Mim (Angelo M�ximo)
9 - Voc� � Doida Demais (Lindomar Castilho)
10 - Estrada do Sol (Perla)
11 - Me Deixe Te Esquecer (Gilliard)
12 - Tenho (Sidney Magal)
a alma encantadora das ruas
�Para compreender a psicologia da rua (...) � preciso ter esp�rito vagabundo, cheio de curiosidades mals�s e os nervos com um perp�tuo desejo incompreens�vel, � preciso ser aquele que chamamos fl�neur e praticar o mais interessante dos esportes � a arte de flanar. � fatigante o exerc�cio? (...) Para os iniciados sempre foi grande regalo.
� vagabundagem? Talvez. Flanar � a distin��o de perambular com intelig�ncia. Nada como o in�til para ser art�stico. Da� o desocupado fl�neur ter sempre na mente dez mil coisas necess�rias, imprescind�veis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidosc�pio da vida no ep�tome delirante que � a rua; � porta do caf�, como Poe no Homem da Multid�es, dedica-se ao exerc�cio de adivinhar as profiss�es, as preocupa��es e at� os crimes dos transeuntes.�
Jo�o do Rio
�Para compreender a psicologia da rua (...) � preciso ter esp�rito vagabundo, cheio de curiosidades mals�s e os nervos com um perp�tuo desejo incompreens�vel, � preciso ser aquele que chamamos fl�neur e praticar o mais interessante dos esportes � a arte de flanar. � fatigante o exerc�cio? (...) Para os iniciados sempre foi grande regalo.
� vagabundagem? Talvez. Flanar � a distin��o de perambular com intelig�ncia. Nada como o in�til para ser art�stico. Da� o desocupado fl�neur ter sempre na mente dez mil coisas necess�rias, imprescind�veis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidosc�pio da vida no ep�tome delirante que � a rua; � porta do caf�, como Poe no Homem da Multid�es, dedica-se ao exerc�cio de adivinhar as profiss�es, as preocupa��es e at� os crimes dos transeuntes.�
Jo�o do Rio
28.4.03
estranhezas, ou the odds of that
Indagado por agentes federais sobre a raz�o do seu mete�rico sucesso nas Bolsas de Valores americanas (em duas semanas transformou 800 d�lares em 350 milh�es) Andrew Carlssin, um investidor de 44 anos, confessou que era um viajante do tempo proveniente de 2256.
Como prova do seu testemunho, o turista detalhou alguns "fatos hist�ricos" tais como a cura da AIDS e o paradeiro de Osama Bin Laden. Recusou-se entretanto a revelar detalhes tecnol�gicos da m�quina que o trouxe at� aqui. O mais intrigante � que os agentes ainda n�o encontraram nenhum registro existente sobre qualquer Andrew Carlssin antes de dezembro de 2002.
A reportagem completa : "Time-traveler busted for insider trading"
Li primeiro aqui.
Indagado por agentes federais sobre a raz�o do seu mete�rico sucesso nas Bolsas de Valores americanas (em duas semanas transformou 800 d�lares em 350 milh�es) Andrew Carlssin, um investidor de 44 anos, confessou que era um viajante do tempo proveniente de 2256.
Como prova do seu testemunho, o turista detalhou alguns "fatos hist�ricos" tais como a cura da AIDS e o paradeiro de Osama Bin Laden. Recusou-se entretanto a revelar detalhes tecnol�gicos da m�quina que o trouxe at� aqui. O mais intrigante � que os agentes ainda n�o encontraram nenhum registro existente sobre qualquer Andrew Carlssin antes de dezembro de 2002.
A reportagem completa : "Time-traveler busted for insider trading"
Li primeiro aqui.
not�cias
Vivo num tempo el�stico e, definitivamente, n�o sou nem sei a bola da vez. Quando li - no banheiro - a not�cia da morte de M�rio Covas e sa� chorando recebi um riso em troca, mas j� faz uma semana! N�o vi o nascimento da Sacha e s� vi os avi�es se chocarem com o World Trade Center por causa de uma dor de cabe�a que me deixou de cama. Vantagem? S� a de n�o perder a capacidade de me admirar com uma not�cia antiga, principalmente por um esquecimento que me faz admirar tr�s vezes com a mesma not�cia.
Continuo sendo uma boa companhia para papos de bar. Como diz A., bom mesmo � poder cansar de tanto me ouvir escutar.
Mas vou fazer um esforcinho pra saber o que estar� nos consult�rios dos dentistas daqui uns dois anos.
Veja
Frases
* "Gostaria de pedir que baixem as faixas, inclusive a gloriosa Liga Oper�ria, que de oper�rio, que � bom..."
Luiz In�cio Lula da Silva, presidente da Rep�blica, em Ouro Preto, ironizando um grupo de manifestantes
* "Por alguma raz�o, nada me parece t�o l�brico e devasso quanto an�es besuntados numa orgia. Mas n�o falo por experi�ncia."
Luiz Fernando Verissimo, em entrevista � revista Oi de abril
Holofote
* Divulgada: a condena��o da atriz iraniana Gowhar Kheirandish a 74 chicotadas, por beijar em p�blico o rosto de um ator. O cumprimento ocorreu durante um festival de cinema e provocou protestos. A lei isl�mica pro�be contatos em p�blico entre homens e mulheres que n�o sejam parentes. O beijo � considerado uma das maiores transgress�es. Gowhar s� levar� a surra se repetir o ato. Dia 23, em Teer�.
* Nina Simone morreu no dia 21, em Carry-le-Rouet, Fran�a, de causa n�o revelada. Nos �ltimos anos, ia para o palco numa cadeira de rodas.
P�ginas Amarelas
"O principal papel do romance, ao menos nos Estados Unidos, sempre foi educar." Scott Turow
Ah t�.
T� mau e t� bom. Vou voltar ao Cyrano de Bergerac. (Ai meu Deus, de novo n�o.)
Vivo num tempo el�stico e, definitivamente, n�o sou nem sei a bola da vez. Quando li - no banheiro - a not�cia da morte de M�rio Covas e sa� chorando recebi um riso em troca, mas j� faz uma semana! N�o vi o nascimento da Sacha e s� vi os avi�es se chocarem com o World Trade Center por causa de uma dor de cabe�a que me deixou de cama. Vantagem? S� a de n�o perder a capacidade de me admirar com uma not�cia antiga, principalmente por um esquecimento que me faz admirar tr�s vezes com a mesma not�cia.
Continuo sendo uma boa companhia para papos de bar. Como diz A., bom mesmo � poder cansar de tanto me ouvir escutar.
Mas vou fazer um esforcinho pra saber o que estar� nos consult�rios dos dentistas daqui uns dois anos.
Veja
Frases
* "Gostaria de pedir que baixem as faixas, inclusive a gloriosa Liga Oper�ria, que de oper�rio, que � bom..."
Luiz In�cio Lula da Silva, presidente da Rep�blica, em Ouro Preto, ironizando um grupo de manifestantes
* "Por alguma raz�o, nada me parece t�o l�brico e devasso quanto an�es besuntados numa orgia. Mas n�o falo por experi�ncia."
Luiz Fernando Verissimo, em entrevista � revista Oi de abril
Holofote
* Divulgada: a condena��o da atriz iraniana Gowhar Kheirandish a 74 chicotadas, por beijar em p�blico o rosto de um ator. O cumprimento ocorreu durante um festival de cinema e provocou protestos. A lei isl�mica pro�be contatos em p�blico entre homens e mulheres que n�o sejam parentes. O beijo � considerado uma das maiores transgress�es. Gowhar s� levar� a surra se repetir o ato. Dia 23, em Teer�.
* Nina Simone morreu no dia 21, em Carry-le-Rouet, Fran�a, de causa n�o revelada. Nos �ltimos anos, ia para o palco numa cadeira de rodas.
P�ginas Amarelas
"O principal papel do romance, ao menos nos Estados Unidos, sempre foi educar." Scott Turow
Ah t�.
T� mau e t� bom. Vou voltar ao Cyrano de Bergerac. (Ai meu Deus, de novo n�o.)
27.4.03
pena
- Voc� me sufoca, com essa mania louca de n�o dizer nada, mas com um olhar de quem diz tudo. Voc� me desorienta com essas ambig�idades. N�o sei como agir. Voc� se mostra como uma pessoa apaixonada, deliciosamente entregue. Est� tudo nos seus olhos. Voc� me seduz com palavras doces. Voc� me envolve e depois n�o diz nada. Sil�ncio. Sil�ncio. Sil�ncio. Eu quero que sua boca assuma o compromisso firmado pelos seus olhares, quero que seu corpo cumpra com o pactuado pelo gestual.
- Tenho receio de falar...
- � esse seu medo que alimenta minha paix�o, que nutre meus mais profundos e ineg�veis sentimentos. � esse receio inexplic�vel que a faz emudecer, e � mesma propor��o provoca uma gritaria dentro de mim. N�o consigo viver nessa situa��o de ang�stia, de n�o-dizeres, de sil�ncios e imagina��es. Quero a verdade, quero defini��es, quero objetividade. Eu quero uma resposta para tudo que eu sinto e vivo!
- Mesmo?
- Sim, quero isso! Acho que mere�o. Acho que diante de tudo que sinto ao menos uma explica��o eu mere�o. Tenho direito de saber qual o destino disso tudo que sinto, sinto-me em condi��o de ter acesso a essa informa��o. Por favor, diga para mim. Fala sobre seu olhar, seu sil�ncio, seus gestos. N�o pergunte se pode, fa�a! N�o pe�a permiss�o, invada! N�o tente ser sutil, arrase!
- Olha, ent�o vou falar...
- Fala tudo!
- Pois bem... Voc� � uma pessoa paran�ica, que simplesmente inventou um amor criado exclusivamente na sua cabe�a. Nunca passei de um olhar, porque n�o quis passar de um olhar. Ali�s, nunca olhei para voc� de modo diferente com que olho para as outras coisas. Queria que olhasse de olhos fechados? Ou prefere que fale sem olhar para voc�? J� lhe ocorreu que tenho boca e que, por acaso, n�o sou uma pessoa t�mida? J� passou pela sua cabe�a que est� mais do que na cara essa sua inten��o? Por algum acaso voc� j� tentou supor que eu teria simplesmente dito tudo isso que voc� acredita que eu possa sentir, caso fosse verdade?
- ...
- Agora fica a�... Esse sil�ncio rid�culo de quem n�o aceita o mundo real.
- Voc� me sufoca, com essa mania louca de n�o dizer nada, mas com um olhar de quem diz tudo. Voc� me desorienta com essas ambig�idades. N�o sei como agir. Voc� se mostra como uma pessoa apaixonada, deliciosamente entregue. Est� tudo nos seus olhos. Voc� me seduz com palavras doces. Voc� me envolve e depois n�o diz nada. Sil�ncio. Sil�ncio. Sil�ncio. Eu quero que sua boca assuma o compromisso firmado pelos seus olhares, quero que seu corpo cumpra com o pactuado pelo gestual.
- Tenho receio de falar...
- � esse seu medo que alimenta minha paix�o, que nutre meus mais profundos e ineg�veis sentimentos. � esse receio inexplic�vel que a faz emudecer, e � mesma propor��o provoca uma gritaria dentro de mim. N�o consigo viver nessa situa��o de ang�stia, de n�o-dizeres, de sil�ncios e imagina��es. Quero a verdade, quero defini��es, quero objetividade. Eu quero uma resposta para tudo que eu sinto e vivo!
- Mesmo?
- Sim, quero isso! Acho que mere�o. Acho que diante de tudo que sinto ao menos uma explica��o eu mere�o. Tenho direito de saber qual o destino disso tudo que sinto, sinto-me em condi��o de ter acesso a essa informa��o. Por favor, diga para mim. Fala sobre seu olhar, seu sil�ncio, seus gestos. N�o pergunte se pode, fa�a! N�o pe�a permiss�o, invada! N�o tente ser sutil, arrase!
- Olha, ent�o vou falar...
- Fala tudo!
- Pois bem... Voc� � uma pessoa paran�ica, que simplesmente inventou um amor criado exclusivamente na sua cabe�a. Nunca passei de um olhar, porque n�o quis passar de um olhar. Ali�s, nunca olhei para voc� de modo diferente com que olho para as outras coisas. Queria que olhasse de olhos fechados? Ou prefere que fale sem olhar para voc�? J� lhe ocorreu que tenho boca e que, por acaso, n�o sou uma pessoa t�mida? J� passou pela sua cabe�a que est� mais do que na cara essa sua inten��o? Por algum acaso voc� j� tentou supor que eu teria simplesmente dito tudo isso que voc� acredita que eu possa sentir, caso fosse verdade?
- ...
- Agora fica a�... Esse sil�ncio rid�culo de quem n�o aceita o mundo real.
26.4.03
esquecer, lembrar
escrever um diário me torna testemunha da minha própria história. não escrevo tudo: filtro. mas o filtro é peneira de palha de batear feijão. e isso.
ou aquilo quando vida vem fantasiada de outra vida. mas é mesmo minha.
as maiores lonjuras de minha vida ficam aqui, canastrinha. aí, entre portos, abro o baú e finjo que o choro é alergia.
arquivo I
Costurou bandeiras na mochila. Cortava a linha com os dentes. Fazia novo noh, com o polegar e o indicador deslizando um sobre o outro, enquanto pensava na avoh com carinho e saudade. Os olhinhos apertados que ela tinha, o cheiro de Lavanda Pop. Olhou a costura e deixou escapar um sorriso, a avoh nao aprovaria. Nada parecido com seus bordados. Mas era parecido com infancia, vestidos de boneca feitos antes da descoberta do avesso, festas juninas e retalhos costurados na calcas jeans.
(Trancas. Flores vermelhas feitas de tecido na ponta das trancas. A sapatilha de lantejoulas coloridas que o avo trouxe de viagem pra longe. Uma foto em que teve que sorrir, mas que ficou mesmo parecendo uma careta, mais condizente com a tristeza de dentro. Naquele tempo jah sentia odio mas ainda nao sabia o que era isso.)
O avo. Pensou no presente que queria dar de Natal. Um livro que contasse do mundo. De um jeito diferente daquele de Monteiro Lobato.
(Historia do Mundo para Criancas, Nosso Amiguinho, pirulitos em forma de bico... O avo era feito de infancia. Uma fada fez com que sentisse cheiro do dia em que aprendeu a andar de bicicleta. Olhou pra traz e viu a mao do avo na garupa.)
Deu o ultimo noh. Ficou bonito. Lembrou da epoca em que descobriu o bonito.
(A cor do doce de banana, de um vinho brilhante. O sorriso de Maria, que nao era feito de boca, mas de felicidade. Um certo livro de capa vermelha. Uma garrafa de vinho guardada ate virar vinagre, com uma embalagem de desenhos azuis. As montanhas de pedras grandes, atras da casa. O vestido branco de florzinhas pequeninas, coloridas, dado pela tia. Lembrou que a avoh ainda o guarda. O mundo se dividia entre os que a protegiam; e a Magoa. Muitos eram os que a protegiam. Fez uma oracao em forma de suspiro, sorriu um sorriso triste.)
Abriu a cortina, soprou os pensamentos pra fora da janela.
Apagou as luzes, ajeitou o travesseiro. Era baixo, precisou dobra-lo.
Tentou dormir. Nao conseguiu.
arquivo II
Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos de outras terras, queria mesmo neste instante era voltar.
Em minhas andancas eu quase nunca soube se estava fugindo de uma coisa ou cacando outra. Nessa brincadeira passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida. E as vezes reparamos que eh ela que se vai, e nos (as vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando.
Ha, e nao vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidao e de morno desespero, aquela surda saudade que nao e de terra nem de gente, e eh de tudo, eh de um ar em que se fica mais distraida, eh de um cheiro antigo de chuva na terra da infancia, eh de qualquer coisa esquecida e humilde - moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, peteca, conversa mole, quebra-queixo. Mas entao as bobagens do estrangeiro nao rimam com a gente, e as ruas sao hostis e as casas se fecham com egoismo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto sua lingua doi como bofetada injusta.
escrever um diário me torna testemunha da minha própria história. não escrevo tudo: filtro. mas o filtro é peneira de palha de batear feijão. e isso.
ou aquilo quando vida vem fantasiada de outra vida. mas é mesmo minha.
as maiores lonjuras de minha vida ficam aqui, canastrinha. aí, entre portos, abro o baú e finjo que o choro é alergia.
arquivo I
Costurou bandeiras na mochila. Cortava a linha com os dentes. Fazia novo noh, com o polegar e o indicador deslizando um sobre o outro, enquanto pensava na avoh com carinho e saudade. Os olhinhos apertados que ela tinha, o cheiro de Lavanda Pop. Olhou a costura e deixou escapar um sorriso, a avoh nao aprovaria. Nada parecido com seus bordados. Mas era parecido com infancia, vestidos de boneca feitos antes da descoberta do avesso, festas juninas e retalhos costurados na calcas jeans.
(Trancas. Flores vermelhas feitas de tecido na ponta das trancas. A sapatilha de lantejoulas coloridas que o avo trouxe de viagem pra longe. Uma foto em que teve que sorrir, mas que ficou mesmo parecendo uma careta, mais condizente com a tristeza de dentro. Naquele tempo jah sentia odio mas ainda nao sabia o que era isso.)
O avo. Pensou no presente que queria dar de Natal. Um livro que contasse do mundo. De um jeito diferente daquele de Monteiro Lobato.
(Historia do Mundo para Criancas, Nosso Amiguinho, pirulitos em forma de bico... O avo era feito de infancia. Uma fada fez com que sentisse cheiro do dia em que aprendeu a andar de bicicleta. Olhou pra traz e viu a mao do avo na garupa.)
Deu o ultimo noh. Ficou bonito. Lembrou da epoca em que descobriu o bonito.
(A cor do doce de banana, de um vinho brilhante. O sorriso de Maria, que nao era feito de boca, mas de felicidade. Um certo livro de capa vermelha. Uma garrafa de vinho guardada ate virar vinagre, com uma embalagem de desenhos azuis. As montanhas de pedras grandes, atras da casa. O vestido branco de florzinhas pequeninas, coloridas, dado pela tia. Lembrou que a avoh ainda o guarda. O mundo se dividia entre os que a protegiam; e a Magoa. Muitos eram os que a protegiam. Fez uma oracao em forma de suspiro, sorriu um sorriso triste.)
Abriu a cortina, soprou os pensamentos pra fora da janela.
Apagou as luzes, ajeitou o travesseiro. Era baixo, precisou dobra-lo.
Tentou dormir. Nao conseguiu.
arquivo II
Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos de outras terras, queria mesmo neste instante era voltar.
Em minhas andancas eu quase nunca soube se estava fugindo de uma coisa ou cacando outra. Nessa brincadeira passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida. E as vezes reparamos que eh ela que se vai, e nos (as vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando.
Ha, e nao vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidao e de morno desespero, aquela surda saudade que nao e de terra nem de gente, e eh de tudo, eh de um ar em que se fica mais distraida, eh de um cheiro antigo de chuva na terra da infancia, eh de qualquer coisa esquecida e humilde - moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, peteca, conversa mole, quebra-queixo. Mas entao as bobagens do estrangeiro nao rimam com a gente, e as ruas sao hostis e as casas se fecham com egoismo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto sua lingua doi como bofetada injusta.
Aquele um. Uns 50 anos, budista. Ganhou dinheiro na vida pra não precisar ganhar mais. Aquele homem. De-cocorados na pirambeira, n�s: olhando o horizonte.
- O que é melhor da vida? é o silêncio, um intervalo.
- Amigos, gostar deles, sentir falta. Conversa fiada, pra pagar depois com moeda oi, suas queridas alegriazinhas.
.
.
.
- E o silêncio trocado assim, por outro silêncio, matuto eu.
(E abrimos lonjuras e profundidades nuns sorrisos. Estamos todos certos.)
25.4.03
23.4.03
21.4.03
princesas
No quando em que ela me media em poucos palmos me ensinou tamb�m a tampar os ouvidos sem usar as m�os. Reinventava os irm�os Grimm e me protegia do escuro.
Eu sonhava que ela era uma princesa n�bia - ainda n�o sei o que � uma princesa n�bia, mas parecia digno.
Ela me fez perder o medo dos bichos-pregui�a que me pareciam monstros mais perigosos que o jacarepagu� ou a cuca. Hoje me segredou que tamb�m tinha medo delas, as pregui�as que moravam nas �rvores na frente da casa, e seus olhos verde-folha de princesa n�bia rebrilharam de passado.
No quando em que ela me media em poucos palmos me ensinou tamb�m a tampar os ouvidos sem usar as m�os. Reinventava os irm�os Grimm e me protegia do escuro.
Eu sonhava que ela era uma princesa n�bia - ainda n�o sei o que � uma princesa n�bia, mas parecia digno.
Ela me fez perder o medo dos bichos-pregui�a que me pareciam monstros mais perigosos que o jacarepagu� ou a cuca. Hoje me segredou que tamb�m tinha medo delas, as pregui�as que moravam nas �rvores na frente da casa, e seus olhos verde-folha de princesa n�bia rebrilharam de passado.
17.4.03
O que ele segundas vezes dera a entender, atravessando em meias palavras: que uma criatura entre todos os melindres crescida e acostumada, que certamente havia de definhar, caso n�o tivessem com ela a servi�ncia desses tratos - conforme que planta alegrete, quando se demuda, carece de vir com o grosso da terra pr�pria das ra�zes, como protesta��o.
G.R.
G.R.
16.4.03
Saddam Hussein
"O presidente iraquiano n�o assina seus livros, por sinal, at� agora, dois romances.
Eles trazem estampado na capa apenas a seguinte tautologia: "Um livro escrito pelo seu autor"."
"O presidente iraquiano n�o assina seus livros, por sinal, at� agora, dois romances.
Eles trazem estampado na capa apenas a seguinte tautologia: "Um livro escrito pelo seu autor"."
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