Tava fazendo hora na biblioteca da faculdade enquanto esperava vagar um computador. Peguei A arte de amar, de Ov�dio. "Ov�dio escreveu para os leitores que viviam nas cidades do imp�rio, descreveu as experi�ncias amorosas da aristocracia romana e as formas de sedu��o amorosa corrente entre os libertos." Vamos ver no que isso deu, depois eu conto.
Peguei tamb�m Ana Cristina Cesar, s� por conta desse poema:
Tenho ci�mes desse cigarro que voc� fuma
T�o distraidamente.
21.1.03
20.1.03
14.1.03
Das expectativas
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma il�ada
depois
a barra pesando
dava pra ser a� um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um elu�rd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de prov�ncia
que sempre fomos
por tr�s de tantas m�scaras
que o tempo tratou como a flores
Paulo Leminski
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma il�ada
depois
a barra pesando
dava pra ser a� um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um elu�rd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de prov�ncia
que sempre fomos
por tr�s de tantas m�scaras
que o tempo tratou como a flores
Paulo Leminski
13.1.03
Mais pombos-correios
ou como uma hist�ria puxa a outra.
D. contou que quando estudava na Escola de Minas, naquela sala grande que j� foi chamada de Maracan� (substitu�da em nome por outra no ICEB), um pombo entrou por um quadradinho da janela. O professor parou a aula e o bedel se desculpou, 'Esse pombo � me, professor. Deve ser minha mulher pedindo pra eu levar carne pro almo�o.'
Retirou o rolinho da pata do animal, confirmou o que j� adivinhara e respondeu de volta: 'Pode deixar.' Amarrou no pombo, falou algo no ouvido (do pombo) e o soltou. Deixanto todos estupefatos.
ou como uma hist�ria puxa a outra.
D. contou que quando estudava na Escola de Minas, naquela sala grande que j� foi chamada de Maracan� (substitu�da em nome por outra no ICEB), um pombo entrou por um quadradinho da janela. O professor parou a aula e o bedel se desculpou, 'Esse pombo � me, professor. Deve ser minha mulher pedindo pra eu levar carne pro almo�o.'
Retirou o rolinho da pata do animal, confirmou o que j� adivinhara e respondeu de volta: 'Pode deixar.' Amarrou no pombo, falou algo no ouvido (do pombo) e o soltou. Deixanto todos estupefatos.
Dos medos
O homem bateu na porta e as duas crian�as foram chamar o pai.
- O senhor n�o tem um r�dio que possa me dar?
O pai lembrou do aparelho abandonado no quarto dos fundos. Buscou o r�dio sob os olhares curiosos das crian�as e o deu ao homem. As crian�as quiseram lhe falar, seriamente:
- Pai, se ele pedir nossa televis�o o senhor vai dar tamb�m?
O homem devolveu o r�dio no dia seguinte, n�o funcionava.
O homem bateu na porta e as duas crian�as foram chamar o pai.
- O senhor n�o tem um r�dio que possa me dar?
O pai lembrou do aparelho abandonado no quarto dos fundos. Buscou o r�dio sob os olhares curiosos das crian�as e o deu ao homem. As crian�as quiseram lhe falar, seriamente:
- Pai, se ele pedir nossa televis�o o senhor vai dar tamb�m?
O homem devolveu o r�dio no dia seguinte, n�o funcionava.
domingo � soletrar a pregui�a de domingo...
Depois do almo�o sentamos na varanda com vista pra vista. Numa casa l� bem longe uma crian�a brincava de balan�o enquanto eu apertava meus olhos pra enxerg�-la. Impressionantemente n�s ouv�amos o barulho que o balan�o fazia. D. contou que um dia desses pousou ali naquela varanda um pombo-correio. Fiquei feliz por viver em um lugar onde se pode ver pombos-correio.
Depois do almo�o sentamos na varanda com vista pra vista. Numa casa l� bem longe uma crian�a brincava de balan�o enquanto eu apertava meus olhos pra enxerg�-la. Impressionantemente n�s ouv�amos o barulho que o balan�o fazia. D. contou que um dia desses pousou ali naquela varanda um pombo-correio. Fiquei feliz por viver em um lugar onde se pode ver pombos-correio.
9.1.03
� ver�o?
Tava calor. Eu j� tinha tentado todos os jeitos, mas n�o consegui dormir naquele �nibus de cadeiras apertadas. R. roncava do meu lado, 'Muda de posi��o pra parar de roncar', 'Como?'. Me resignei. Fiquei acordada, pensei na vida, em Benedita. Nas aulas dentro de poucas horas. Pensei em Salvador, ainda vou morar l�... Vi ruas de Atenas, de Verona, de Porto Alegre. Lembrei de uma frase do lorde Byron: "Comer, beber, amar. O resto n�o vale um n�quel." - e isso me rendeu uma meia hora de devaneios. Tentei virar de lado, contar carneirinhos, ir ao banheiro. Cochilei.
Ent�o fui acordada pelo frio, e soube que estava chegando em Ouro Preto.
Tava calor. Eu j� tinha tentado todos os jeitos, mas n�o consegui dormir naquele �nibus de cadeiras apertadas. R. roncava do meu lado, 'Muda de posi��o pra parar de roncar', 'Como?'. Me resignei. Fiquei acordada, pensei na vida, em Benedita. Nas aulas dentro de poucas horas. Pensei em Salvador, ainda vou morar l�... Vi ruas de Atenas, de Verona, de Porto Alegre. Lembrei de uma frase do lorde Byron: "Comer, beber, amar. O resto n�o vale um n�quel." - e isso me rendeu uma meia hora de devaneios. Tentei virar de lado, contar carneirinhos, ir ao banheiro. Cochilei.
Ent�o fui acordada pelo frio, e soube que estava chegando em Ouro Preto.
A mem�ria � maior.
Fernanda, de 12 anos, me perguntou se a Torre Eiffel era grande. "Menor que a pedra de Ouro Verde."
(Em minha inf�ncia meus av�s moravam em Ouro Verde. Meu av� tinha uma fazenda de caf� que era cheia de 'or�pa', abelhas selvagens com nome de outro continente, nunca entendi isso. Tinha tamb�m tamandu�, marias-pretas e sofreus. Tucano tinha um no quintal da casa na cidade. Na pracinha na frente morava uma fam�lia de bichos-pregui�a. Eu engolia piabinhas vivas, Tin� dizia que s� assim ia aprender a nadar.
Um velho contava hist�rias de fantasmas na frente da fogueira no m�s de julho. Eu tinha medo dele.
Roubava laranjas-bahia na casa de Tim, de um �nico p�. Inda agora minha boca enche d'�gua, nunca mais comi laranjas-bahia iguais. Soube que o p� foi cortado.
Julinho P�-de-pato andava de terno, mas s� tomava banho nas f�rias, de mangueira, dado por meu tio Juninho, que tamb�m lhe tirava os bichos do p�, com uma agulha e v�rios impromp�rios. Julinho sentado no banco do jardim. Juninho sentado num banquinho baixo, de jacarand�.
Julinho P�-de-pato me chamava de princesa.
Eu tinha um p� de jabuticaba, respons�vel por umas tantas broncas pelas manchas nas roupas de pleb�ia.
Meu av� me dizia que a pedra alta, que podia ser vista da pra�a, e ficava atr�s da casa, tinha sido vendida pros japoneses. Pra fazer pedra de isqueiro.)
Fernanda, de 12 anos, me perguntou se a Torre Eiffel era grande. "Menor que a pedra de Ouro Verde."
(Em minha inf�ncia meus av�s moravam em Ouro Verde. Meu av� tinha uma fazenda de caf� que era cheia de 'or�pa', abelhas selvagens com nome de outro continente, nunca entendi isso. Tinha tamb�m tamandu�, marias-pretas e sofreus. Tucano tinha um no quintal da casa na cidade. Na pracinha na frente morava uma fam�lia de bichos-pregui�a. Eu engolia piabinhas vivas, Tin� dizia que s� assim ia aprender a nadar.
Um velho contava hist�rias de fantasmas na frente da fogueira no m�s de julho. Eu tinha medo dele.
Roubava laranjas-bahia na casa de Tim, de um �nico p�. Inda agora minha boca enche d'�gua, nunca mais comi laranjas-bahia iguais. Soube que o p� foi cortado.
Julinho P�-de-pato andava de terno, mas s� tomava banho nas f�rias, de mangueira, dado por meu tio Juninho, que tamb�m lhe tirava os bichos do p�, com uma agulha e v�rios impromp�rios. Julinho sentado no banco do jardim. Juninho sentado num banquinho baixo, de jacarand�.
Julinho P�-de-pato me chamava de princesa.
Eu tinha um p� de jabuticaba, respons�vel por umas tantas broncas pelas manchas nas roupas de pleb�ia.
Meu av� me dizia que a pedra alta, que podia ser vista da pra�a, e ficava atr�s da casa, tinha sido vendida pros japoneses. Pra fazer pedra de isqueiro.)
Das janelas
Meu av� me perguntou se eu n�o me cansei de viajar. Fiquei olhando pra ele e seus olhinhos me contaram de estradas, de pastos. Umas fazendas com vacas brancas, outras com vacas misturadas. Pedras grandes, com abacaxizinhos pela superf�cie. Depois me falaram de lama, de atoleiros. De riozinhos passando, como quem n�o quer nada, atravessando a estrada. Cheiros de mato suado, de estrume.
Perguntei se ele j� tinha se cansado de ver, de olhar pela janela, pelas janelas. Ele sorriu.
Meu av� me perguntou se eu n�o me cansei de viajar. Fiquei olhando pra ele e seus olhinhos me contaram de estradas, de pastos. Umas fazendas com vacas brancas, outras com vacas misturadas. Pedras grandes, com abacaxizinhos pela superf�cie. Depois me falaram de lama, de atoleiros. De riozinhos passando, como quem n�o quer nada, atravessando a estrada. Cheiros de mato suado, de estrume.
Perguntei se ele j� tinha se cansado de ver, de olhar pela janela, pelas janelas. Ele sorriu.
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